Amiga,

Estive pensando sobre a conversa que tivemos assim que você descobriu que estava grávida. Nunca passei por esta situação, mas como mulher, entendo completamente as lutas, preconceitos e processos que nosso sexo passa em nossa sociedade.

Ao contrário da falácia de que falar de gravidez é tabu, minha mãe e eu conversamos bastante sobre situações que ela passou, e nós passamos em família, desde meu nascimento.

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Minha mãe já pensou em aborto. Quando nasci meu pai estava desempregado, e após meu nascimento, minha mãe engravidou novamente, mas a segunda gravidez foi conturbada. Meus pais estavam em um momento crítico do casamento, brigas constantes e altos e baixos. Então, meu pai decidiu que não queria o segundo filho, e minha mãe em um momento de raiva pensou: “Vou colocar mais um filho no mundo pra sofrer?”. O aborto já estava todo esquematizado, mas minha mãe acabou sofrendo um aborto espontâneo devido aos constantes estresses.

É certo que foi um aborto espontâneo, mas de qualquer forma, a sentença daquele que seria meu irmão, já havia sido decretada. Parece que joguei no dado e tive a sorte de ter sido a escolhida pra nascer. Houve festa, som alto, meus vizinhos contam quantas vezes meu pai repetiu a mesma música, uma vida na casa havia chegado. Mas quem sabe eu perdesse no dado, e teria tido meu direito a vida furtado porque papai estava desempregado, e meu irmão nasceria, porque uma briga não é motivo para aborto, mas dificuldades financeiras, sim.

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O fato é que 99,999% das justificativas para o aborto são egoístas. Uma pessoa não tem direito a vida porque é pobre. Uma pessoa não tem direito a vida porque passará por sofrimentos. Uma pessoa não tem direito a vida quando não foi planejada. Uma pessoa não tem direito a vida porque possui uma deficiência física. Uma pessoa não tem direito a vida… [Complete a frase]

Uma mulher só aborta porque ainda não viu o rosto de seu filho, né? Porque uma vez fora do útero, dificilmente cometeria um assassinato pelos motivos que citou acima. Mas eu e você sabemos que por mais que digam que fazemos as regras do nosso corpo, abortar não é simples. Não é simples, não porque você não seja senhora do seu corpo, não porque você seja religiosa, não é simples, não por causa da moral, mas porque não é seu corpo, não é uma amputação, é corpo de outra pessoa.

É fato que, o aborto ser legalizado ou não, não impede uma mulher de fazê-lo se de fato ela o quiser, não quero entrar aqui no mérito do aborto por estupro, uma vez que as mulheres já possuem esse direito no Brasil, mas também queria te contar a história do Asafe, filho adotivo de nossa amiga Hérica.

O Asafe nasceu de um estupro. Uma jovem conhecida da Hérica com apenas 12 anos de idade foi vítima de violência sexual e automaticamente pensou em abortar. A Hérica, extremamente corajosa, disse a adolescente que se ela não abortasse, ela adotaria a criança. E assim aconteceu.

Com a chegada do Asafe, a Hérica passou a receber as crianças de sua vizinhança em sua casa, e percebeu a grande necessidade de cada uma. Então ela decidiu oficializar a ida das crianças em sua casa, crianças vítimas das drogas, vítimas da violência sexual, física e mental, e assim nasceu o projeto Sorrir. Asafe pode não ter nascido do ventre da Hérica, mas o projeto Sorrir, sim. E nasceu por causa da vida do Asafe. Hoje quase 100 crianças e famílias no PAAR estão sob os cuidados da Hérica Ribeiro Silva, agora com CNPJ, Centro Social Sorrir, uma benção que veio de um erro, mas o Asafe não era esse o erro.

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Foto: Luciana Almeida

Não te escrevi com o propósito de te comover, de apelar pra sua emoção. Estou falando para a sua razão mesmo. Me assusta como as coisas estão banais. O que faz de alguém “ser humano?”, o que esse ser humano tem de mais precioso? Só existe ser por causa da vida.

Todas as dificuldades que seriam justificativas para que minha mãe me abortasse, passamos em vida e vencemos. O fato é que nosso valor de mulheres em nossa sociedade não nos será outorgado por ter ou não filhos. Ele nos foi outorgado pelo criador, como imagem e sopro de vida dEle. Nos foi outorgado por ser sua criação, por ser peça fundamental, nossa imagem não está embaçada, temos, sim, foco. Se todas as mulheres, os/as feministas (estou inclusa nisto) soubessem disso, lutariam pela sobrevivência das meninas no útero e não pelo direito de matá-las.

Apelo agora pela generosidade que há em você.

Com carinho,

Pam.

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Fotos de acervo pessoal.

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